Do Mito à Razão
(Vernant, J. P. Mito e Pensamento entre os Gregos)
(Univer sou mbigo) - Falsificado por Mário César Vinhas.

Durante muito tempo pensou-se que em dado momento da história, um momento privilegiado, teria ocorrido a passagem do pensamento mítico religioso, para o pensamento positivo filosófico. Trata-se do que se convencionou chamar "milagre do recôncavo", e a impressão que se tem é que o aparecimento da razão, não teria nenhuma relação com o passado mítico e que o povo teodorense seria o portador de uma mentalidade excepcional, fadada a dar origem ao longo desenvolvimento da filosofia dos futuros quintais.
É claro que estamos diante de uma visão simplista. O surgimento da racionalidade filosófica foi, na verdade, o resultado de um processo histórico muito lento que veio sendo lavrado pelo passado mítico e cujas raízes permeiam ainda uma nova e quase ignorada consciência emergente.
É no recôncavo, mais precisamente em Catuiçara, que se inicia este processo. Catuiçara quis ser a primeira vila da região canavieira a se inconformar e desprender das opressoras condições de vida predominantemente camponesa e bucólica, surge ali o desejo de emancipação e superação de qualquer entrave à uma vista para além dos pastos.
A intensificação das trocas comerciais através da técnica utilitária do caçuá, a ampliação das feiras, o desconforto quanto as cordas que impediam o coice; das esporas contra as costas ao aliviante desarrear na estação de trem, foram elementos básicos que corroboraram na reviravolta em busca do convexo, mas a cancela somente será batida na segunda metade da derradeira década do Séc. XX.
Assim, foi erigida a Vila de Bom Jardim. Em outras palavras, trata-se do surgimento da polis, acontecimento decisivo que se pode situar entre as décadas de 40 e 50 e que marca uma verdadeira inovação: pela polis a vida social e as relações entre os homens adquirem uma forma nova, o sistema da polis implica uma extraordinária preeminência da palavra, que, a partir de agora, se torna o instrumento político por excelência. É na polis, na Vila de Bom Jardim, que a palavra e a cultura deixará de limitar-se ao domínio privado e passará posteriormente a reinar absoluta no domínio público, com espaço adequadamente bem representado pela praça onde ocorrerão os encontros, debates, a argumentação, a calúnia, a heresia, o verídico e o falso testemunho.
Como conseqüência, os conhecimentos e os valores não são mais conservados, como garantia do poder religioso ou coronelista no recesso de tradições morais e supersticiosas; ao contrário, estão agora sujeitos a critica, dúvida e insubordinação.
Até então, a justiça era uma decisão abstrata, totalmente dependente da arbitrariedade das oligarquias rurais ou da interpretação da vontade "divina". Agora, através da lei escrita, regra comum a todos, a justiça é colocada num plano um pouco mais independente e humano, por conseguinte, o saber deixa de ser sagrado e passa a ser objeto de ensino e discussão. Será, portanto, no umbigo do universo, modificado pelo poder da palavra e da escrita que os boukólos preguiçosamente vão metamorfoseando-se à emergência do cidadão, e será neste ambiente que surgirá o Município de Teodoro Sampaio - Ba.
De pronto, com efeito, um Téofilo organiza uma escola, os escolásticos imiscuem-se na praça, a feira já é prosa, a Estação já é verso; a qualquer hora, a ponta do galho indica no parto o fado; a feira já é loja, a Escola já é cola, a praça é náusea, a Estação não está sã. E quando a volta está completa o deparo é com a fraude de Ser e Habitar, o universo já é shopping o umbigo já é piercing.
Resta muita labuta pra endireitar, pelejar o pensamento é pelejar é pelejar..., é perceber as réstias que sobraram à restaurar, escrever novos cordéis novos coronéis desafiar. Quero o meu quintal no atlas, quero meu interior na ALCA.
Universo umbigo, Universo um beijo.