I
Ante tudo, o Núcleo de Pensamento Filosófico e seus membros laboram o máximo destemor da autocrítica e já que invocam a reflexão filosófica contra a alienação e o domínio da mediocridade, não se apartam e também se responsabilizam pelo quase sumiço da razão e apogeu da insensibilidade ou alienação existencial, misto de imbecilidade, egocentrismo e vontade de poder. O Pensatório e seus membros sabem que estão imiscuídos na própria epistemologia adotada e que nada os livra e guarda, somente a inclusão, o encosto e a cognição podem auxiliar na limpeza do caminho até o ocaso.
II
O propósito de refletir e debater idéias, realizado
anualmente pelo Núcleo de Pensamento Filosófico é lúcido
do cometimento de imprudência cultural por sentido volitivo de desvelamentos
e pela ilusão de incômodo no fraudulento projeto civilizatório
contemporâneo.
Analítico, sensível, espontâneo, corajoso o Pensatório
tem recebido crescente número de participantes de diversas cidades,
escolas, cantos, universidades; graduados, especialistas, mestres, pesquisadores,
leigos; numa rara reunião sem propostas, mas de limpo ofertório.
Uma livre usina de reflexões sem rito, mas de eco imprevisível.
Surpresas emergem de pacíficos falsos profetas que discorrem sempre
em atrevimento, e tudo toma forma de informalidade e se expande, e, sem que
ninguém faça nada, dias se sucedem, todo fim é meio uma
viagem debalde.
Conclusão nenhuma, nada está no meio de nós, labuta que
reproduz sem suor, lida que passa sempre e vai junto de nós, camuflada,
travessada, travestida de angústia, amor, colesterol, melancolia, deus,
violência, obsessão, bondade; de etc.
Pensamento já é resto. Ação é rasto do
resto que agoniza. Há um peixinho no aquário - disse o visionário.
III
O que pode fecundar esta cópula, depende
do afrontamento das questões, depende do relacionamento com os flancos
mais sutis da insanidade de nossas vãs inconseqüências,
depende da direção do vento quando esboroar a ganância.
O ato filosófico será sempre resíduo de uma exigência
quase inevitável de enraizamento “a vida é terra e o vivê-la
é lodo”, talvez o Pensatório seja o momento do nojo. Pode
ser a reconstituição de todos os crimes que cometemos; pode
ser a revisão de todas as vezes que ressuscitamos. Estamos nos desconstituindo
como agentes de nossa própria história e é como se fosse
verdade que existe um ser superior que escolhe as nossas escolhas e sequer
esmola que elas sejam boas. Edificamos alambiques de garapas, não mais
reconhecemos sumo. Ou nos tornamos natas ou seremos nada.
IV
- O Homem como produto do meio ou o homem cultural, pode ser entendido como uma cópia da cópia da cópia num crescente e ou decrescente assimilativo; ele vai resultando do alheio, onde a somatória é proporcional à distância da matriz, numa despersonalização via ecletismo desvairado, donde, ir de retro é o verdadeiro caminho para não ser tipicamente aquilo que tipicamente não se é. Este homem, sem dúvidas, é o homem do nosso tempo, o homem que o marketing comeu, grande aparador que vai se diluindo, um é nenhum e todos são um; é multiplicado e multiplicador, é o homem da parecença, ou seja, parece ser, parece ter, parece ser triste, parece até ser gente séria, serial killer de autenticidades. Um sentido mercantil é dono de todos os sentidos, cuida, controla, ensina, normaliza, formaliza, induz, influencia, manipula, cerceia, fomenta, instiga. O homem cultural está cercado na dinâmica do eterno retorno destes verbos, e sendo substituível, descartável, recontratável, reencarnável sua falta é farsa, ele parece ser feliz, e perece sendo assim feito nós.
- O homem produto da margem é Reflexivo, aparador seletivo, os outros são os outros; este desfila sobre o muro como se fosse para casa, tem pressa de ter calma, é um multiplicado sem querer ser multiplicador, é uma cópia da cópia em si; como produto da margem é frágil a sua inteireza, e sendo assim, é mais na sua com sua recíproca premeditada, este homem produto de meio do meio, com fusão involuntária sofre incômoda carência da matriz, este intermédio entre o fundo e a superfície, pensa que emerge, pensa que respira, despindo é carne, cuspindo é cuspe, ele parece ser simples e perece sempre assim desfeito ele.
- O homem como produto do fundo é radical para ele o outro são uns, quer ser multiplicador da sua unidade, quase sem reflexo, reflete referências da mais torta envergadura. Roots envergonha-se de postar-se sobre o muro, preferindo esquinar o indefinido, ir mais para dentro que para os lados, dedica-se à dispersão e ao cisco na vista de um só ponto, enxerga solitário por buracos, é caolho entre lentes de contato e até fichou-se em almanaques por fetiche de fado. Este até parece com ninguém e falece, mas sem pistas, feito assim um vitrinista que numa rua infinda, trata de findar-se se fixando trás dos vidros, para que possamos vê-lo em nossas curtas vidas e apreciá-lo concluindo que nem temos a nós nem a quem nos tem, tudo cai, tudo esvai, tudo é segundos.
Pensatório
Textos
geralmente elaborados sob assumida inspiração umbilical, constituído
em estilos bairrista, irônicos, apaixonados, desesperados, também,
provocantes e tranqüilos, no propósito de aliviar, aterrorizar
ridícula carga preconceituosa, de uma pseudo-supremacia urbana sobre
a incompreendida, caricaturada e relegada existência do povo interiorano.
É fato que o homem, todo o tempo, busca afirmar-se sobre o outro e
de todas as formas possíveis, para num misto de auto afirmação
e auto engano compor uma auto estima, simulacro do sentido de sua vida, sob
pena de sentir-se um fracassado.
Neste sentido o sentido é a superação, entendida como
depreciação de tudo que não se é, de tudo que
não se consegue ser, assim, "é feio o que não é
espelho".
Esqueçam aquele papo de comunhão e admiração,
o que não for asfalto, o que não for pista de dança,
o que não estiver detrás da vitrine; e se não tiver este
modo, aquela etiqueta, e se não usar esta cor, esta coca, esta pizza
Direc TV... Já era, já foi, já fui...
O estabelecimento do antagonismo geográfico, "maior versus menor",
avança concentrando cada vez mais. A proposta do Desenvolvimento Insustentável
é: - O que for maior deve ser maior ainda; sendo seu oposto verdadeiro,
- o que for menor que seja invisível. Aí fica todo mundo pensando
que beiço de jegue é arroz doce, e a infinitude do finito, vez
em quando, incomoda e exporta seus modelos que invariavelmente se acomodam,
e o mundo inteiro gira e não sai do lugar.
Deste jeito, nem lugar grande nem lugar pequeno faz humanidade melhorar.
- O de cá num tem que invejar o de lá. - O de lá num
tem que depreciar o de cá.
Qualquer proposta de Desenvolvimento Sustentável deve inverter o foco,
se quer desenvolvimento, pois então, atente para o encolhimento.
Aqui é "ô de casa? - Pode entrar"; nada mais acolhedor,
tipicamente residencial e banal e belo e solidário e somente possível
no interior. Na cidade pequena o sereno faz todo o serviço, tudo é
tão simples que serviço é ser vivo, e nada disso é
poesia, isto ainda é real, mas é urgente é terminal.
Se quiser ser sustentável, um modelo de Desenvolvimento deve imprimir
aos recursos naturais (dos horizontes aos quintais) toda devida relevância.
O abandono em que se encontram os pequenos “redutos eleitoreiros”
é comovente; a estrema pobreza, falta de oportunidades e expectativas
à juventude é cruel; as administrações desculpam-se
e disfarçam múltiplas faces: incompetência, insensibilidade,
corrupção, brutalidade; faltam recursos, faltam apoios, estradas,
incentivos, escolas; nunca tem bibliotecas, sobram bares, rio poluído,
praças abandonadas, uma calamidade calada.
Senhor Governador, que um lugar chamado "Bom Jardim", nunca troque
de nome, para nome de senhor nenhum; nós que aqui estamos sonhamos
com a Universidade do Recôncavo, com o atendimento aos nossos direitos,
com o pagamento de nossos salários, com a valorização
de nossas crianças e idosos, queremos expor na roda o nosso samba de
roda; nós afros teodorenses temos muito pra dar ao mundo, e se esquecidos,
pior para nós e pior o mundo.
Mário César Vinhas 15.10.2003
